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Alfabetização na idade certa: o que aprendi com o Projeto GAP

Alfabetizar até o 2º ano e recompor aprendizagens exige acompanhamento próximo. O que o Projeto GAP ensinou sobre olhar o tempo de cada criança.

Letras GAP com rostos sorridentes e um lápis, sobre a legenda Grupo de Acompanhamento Pedagógico

Alfabetizar toda criança até o fim do 2º ano virou compromisso nacional, meta de rede e indicador de avaliação. Em São Paulo, o SARESP e as avaliações externas cobram resultado ano a ano. Depois da pandemia, o desafio ganhou outro nome, recomposição das aprendizagens, para as turmas que chegaram ao 3º, 4º e 5º anos sem a base que deveriam ter.

Não vou discutir aqui as políticas. Quero contar o que aprendi na prática, como alfabetizadora do Projeto GAP, o Grupo de Apoio Pedagógico, com crianças do 2º e 3º anos que apresentavam defasagem. Ao final do ano letivo, a grande maioria delas estava alfabetizada. O que fez diferença cabe em poucos princípios.

Cada criança tem seu tempo

A defasagem não é falta de capacidade. É desencontro entre o tempo da criança e o tempo da turma. Quando a sala avança e a criança fica, cada dia amplia a distância, e ela aprende, antes de qualquer letra, que “não consegue”.

O GAP partia do contrário: cada criança tem seu tempo, suas particularidades e sua forma de aprender. O trabalho começava por descobrir onde ela estava de verdade, e não onde o currículo dizia que deveria estar.

Diagnóstico, avaliação e acompanhamento

Três palavras sustentavam tudo:

  1. Diagnóstico. Antes de ensinar, entender. Que hipóteses a criança tem sobre a escrita? O que já lê? Onde trava? Sem isso, o apoio vira repetição do que já não funcionou em sala.
  2. Avaliação periódica. Não a prova no fim, mas o olhar contínuo: a cada semana, o que mudou, o que precisa mudar no material, no agrupamento, na atividade.
  3. Acompanhamento individualizado. Material elaborado por mim conforme a dificuldade de cada aluno. Quando necessário, a criança era atendida fora da sala, e voltava ao grupo à medida que conquistava autonomia. O objetivo nunca foi tirá-la da turma; era devolvê-la à turma em condição de acompanhar.

O que a recomposição pede hoje

O que o GAP fazia com um grupo, as redes precisam fazer em escala. Isso não se resolve só com plataforma ou apostila. Pede professor com tempo para diagnosticar, material que se adapte à criança (e não o contrário), horário protegido para o apoio e uma gestão que trate a alfabetização como prioridade de toda a escola, não como problema do professor do 2º ano.

Pede também cuidado com quem alfabetiza. A pressão por meta, quando cai sobre uma professora sem apoio, não produz leitores; produz afastamento. A mesma lógica da NR-1 vale aqui: condições de trabalho são condições de aprendizagem.

Celebrar é parte do método

O encerramento de cada ciclo do GAP era uma celebração, com as famílias na escola e o retorno da comunidade. Não era enfeite. Para uma criança que aprendeu a dizer “não consigo”, ler diante da família é a prova de que a história mudou. E para a equipe, é o lembrete de por que o trabalho vale a pena.

Alfabetizar na idade certa é meta. Alfabetizar cada criança, no tempo dela, com alguém olhando de perto, é o caminho.

Rosi Puodzius é pedagoga, pós-graduada em Gestão Educacional e diretora escolar na rede municipal de Taboão da Serra. Foi alfabetizadora do Projeto GAP e preparou turmas para o SAEB, a Prova Brasil e o SARESP. Conheça sua trajetória.

Palestras e formações

Rosi leva este tema às equipes escolares, a partir da experiência de quem alfabetiza, coordena e dirige.