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Por que a NR-1 importa para a escola

A NR-1 passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais no trabalho. O que isso muda na escola e por que cuidar de quem ensina é cuidar de quem aprende.

Cinco fichas de madeira com ícones de mente, cuidado, equipe, diálogo e proteção, ao lado da pergunta “Sua escola está preparada para a NR-1?”

Todo mundo que trabalha em escola conhece a cena: a professora que dá conta de duas turmas porque faltou colega, a reunião que termina com mais tarefas do que respostas, o conflito com uma família que ninguém ajuda a resolver. Durante muito tempo, isso foi tratado como “parte do trabalho”. A partir da atualização da Norma Regulamentadora nº 1, deixou de ser.

O que mudou na norma

A NR-1 é a norma geral de segurança e saúde no trabalho no Brasil. Ela define como toda organização deve identificar, avaliar e controlar os riscos a que expõe quem trabalha, por meio do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do documento que o registra, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Com a atualização publicada em 2024, os riscos psicossociais entraram nessa lista, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. A exigência começou a valer em 2025, com um primeiro período de orientação antes das autuações. Em resumo: a organização precisa mapear os fatores do trabalho que podem adoecer as pessoas, registrá-los e mostrar o que está fazendo a respeito.

Riscos psicossociais são os que nascem da forma como o trabalho é organizado e das relações no ambiente: sobrecarga, jornadas longas, falta de autonomia, pressão por resultado, conflitos, assédio, insegurança no vínculo. Não são “fraqueza” de ninguém. São condições de trabalho.

Por que a escola é um caso à parte

Poucos ambientes concentram tantos desses fatores quanto uma escola. Há a responsabilidade permanente com crianças, que não pode ser adiada. Há as avaliações externas, que trazem metas sem trazer, necessariamente, condições. Há famílias, comunidade, indisciplina, violência no entorno. E há equipes reduzidas, em que a falta de um profissional recai imediatamente sobre os demais.

O resultado aparece nas licenças médicas, nos pedidos de remoção, nos professores que deixam a carreira. Cada afastamento é um professor a menos em sala e mais peso sobre quem fica. O adoecimento de quem ensina se transforma, muito rápido, em prejuízo para quem aprende.

“Mas escola pública não é CLT”

É uma dúvida frequente, e a resposta honesta é: depende. A NR-1 se aplica integralmente às escolas particulares e aos profissionais contratados pela CLT, inclusive terceirizados e contratados de redes públicas. Para servidores estatutários, a aplicação formal segue outras regras.

A lógica da norma, porém, não depende do vínculo. Mapear os riscos, prevenir e acompanhar é o que qualquer gestão escolar deveria fazer por sua equipe, com ou sem obrigação legal. A norma ajuda porque dá método e vocabulário a um cuidado que muitas escolas já tentam praticar de forma intuitiva.

Por onde uma escola começa

Não é preciso consultoria nem sistema. Três movimentos já mudam o cenário:

  1. Escutar de forma organizada. Uma roda de conversa com pauta, ou um questionário simples e anônimo, mostra onde estão os pontos de maior desgaste. A equipe costuma saber exatamente o que pesa.
  2. Nomear e registrar. Transformar o que foi ouvido em uma lista de riscos, com uma avaliação simples de gravidade. É o embrião do inventário de riscos que a norma pede.
  3. Decidir três medidas. Não vinte. Três medidas possíveis para o próximo mês, com responsável e prazo: proteger o horário de planejamento, definir como os conflitos com famílias serão mediados, combinar como as decisões da gestão serão comunicadas.

Depois disso, revisar a cada semestre. O ciclo é o mesmo do GRO, só que na escala da escola.

Cuidar de quem ensina também é cuidar de quem aprende

Na minha trajetória, da alfabetização à direção, o que mais vi funcionar com as crianças foi o acompanhamento próximo: cada uma tem seu tempo, e alguém precisa olhar para esse tempo. No Projeto GAP, esse princípio levou a grande maioria das crianças com defasagem à alfabetização ao final do ano letivo.

Com os adultos da escola, o princípio é o mesmo. Uma equipe que é escutada, que sabe o que se espera dela e que tem apoio quando o trabalho aperta consegue cuidar das crianças como elas merecem. A NR-1 chegou para dizer que isso não é favor, é obrigação. A escola pode transformar essa obrigação em projeto.

Rosi Puodzius é pedagoga, pós-graduada em Gestão Educacional, diretora escolar na rede municipal de Taboão da Serra, e leva o tema dos riscos psicossociais às equipes escolares em palestras e formações.

Palestras e formações

Rosi leva este tema às equipes escolares, a partir da experiência de quem alfabetiza, coordena e dirige.