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Quando o professor adoece: saúde mental e afastamento nas escolas

Os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento de professores. O que a escola pode fazer antes da licença, à luz da NR-1.

Professora sentada à mesa da sala de aula, com as mãos na cabeça, cercada pelas palavras ansiedade, estresse, sobrecarga, exaustão, adoecimento e afastamento

Toda escola tem uma história parecida. A professora experiente que começa a faltar, que chora na sala dos professores, que pede remoção. O colega que entra de licença e a turma que passa de mão em mão até a substituição chegar. A gente aprende a lidar com isso como se fosse normal. Não é.

Levantamentos das redes de ensino e das entidades da categoria vêm apontando, ano após ano, os transtornos mentais, como ansiedade, depressão e esgotamento, entre as principais causas de afastamento de professores. Os números variam de rede para rede, mas a direção é a mesma, e quem está na escola não precisa de estatística para reconhecer.

Por que a escola adoece

O adoecimento de professores não é um problema individual. É a soma de condições de trabalho que a NR-1 passou a chamar pelo nome: riscos psicossociais.

  • Sobrecarga: turmas cheias, acúmulo de aulas, planejamento e correção fora do horário, funções que não são do professor.
  • Pressão por resultado: metas de avaliação externa sem as condições para alcançá-las.
  • Falta de apoio: conflitos com famílias e indisciplina enfrentados sozinho, sem retaguarda da gestão.
  • Insegurança: contratos temporários, mudança de escola a cada ano, incerteza sobre a atribuição de aulas.
  • Falta de reconhecimento: o trabalho bem feito passa despercebido; o erro vira cobrança pública.

Nenhum desses fatores, sozinho, derruba alguém. Juntos e repetidos, derrubam.

O custo de esperar a licença

Quando a escola só reage ao afastamento, já é tarde. A licença tira um professor da sala; a substituição demora; os colegas absorvem a carga; a turma perde continuidade; e a pessoa afastada volta, quando volta, para as mesmas condições que a adoeceram.

A NR-1 inverte a lógica: pede que a organização identifique os riscos antes, avalie e aja. É a diferença entre prevenção e remendo. Nas redes públicas, a aplicação formal da norma depende do vínculo de cada profissional, mas a lógica vale para todas.

O que uma escola pode fazer

Falo do lugar de quem dirige uma escola com mais de 1.000 alunos e 80 profissionais, e de quem passou mais de dez anos em sala antes disso. Algumas medidas não custam dinheiro e mudam o clima:

  1. Escuta com hora marcada. Um espaço regular, com pauta, para a equipe dizer o que pesa. Não é desabafo solto: é diagnóstico.
  2. Sinais de alerta combinados. Faltas que se repetem, isolamento, irritabilidade, queda no envolvimento. Coordenação e direção precisam perceber cedo e ter um combinado sobre o que fazer.
  3. Proteção do tempo. Horário de planejamento é horário de planejamento. Reunião tem pauta e hora para acabar.
  4. Conflitos mediados pela gestão. Ninguém enfrenta uma família ou um aluno agressivo sozinho. A retaguarda precisa ser real, não discurso.
  5. Reconhecimento no lugar certo. Elogio em público, correção em privado. Parece simples; muda tudo.

Cuidar de quem cuida

Uma equipe adoecida não consegue cuidar das crianças como elas merecem. Não por falta de vontade, mas por falta de condição. Cada afastamento é um professor a menos e um peso a mais em quem fica, e a criança sente antes de todo mundo.

Cuidar de quem ensina não é um favor à equipe. É a base do trabalho pedagógico. A NR-1 chegou para dizer isso com força de norma. A escola pode transformar essa exigência em cultura.

Rosi Puodzius é pedagoga, pós-graduada em Gestão Educacional e diretora escolar na rede municipal de Taboão da Serra. Leva o tema dos riscos psicossociais às equipes escolares em palestras e formações.

Palestras e formações

Rosi leva este tema às equipes escolares, a partir da experiência de quem alfabetiza, coordena e dirige.